por Eduardo Carli para A Casa de Vidro – Ano 15
Goiânia, 22 de Junho de 2025
Enquanto o Trumpistão, coligado com IsraHell, bombardeia o Irã, baseando-se na infame ideologia da “Guerra Preventiva” (que já vimos ser mobilizada em 2003 para justificar a genocidária invasão do Iraque), penso com meus angustiados botões de carne-e-osso: eis dois países imperialistas, lotados de bombas atômicas, inclusive aquele responsável por dizimar as populações civis de Hiroshima e Nagasaki, condenando gerações japonesas à radioatividade cancerígena, que agora chovem destruição sobre um país que não tem (ainda) nenhuma arma nuclear.
Os Estados Unidos da Agressão e a entidade sionista por este financiada querem o monopólio das armas de destruição em massa, o que os permite ter a força bruta para serem os xerifes da porra toda – alguns ainda devem se lembrar das famosas armas de destruição em massa do regime de Sadam Hussein que, se não existiam, tiveram que ser inventadas. A doutrina da Guerra ao Terror – alive and kicking (ou deveríamos dizer alive and bombing?) – hoje utiliza-se, para cometer suas atrocidades em série de terrorismo-de-Estado de larga escala, de argumentos como… o regime iraniano apóia o Hamas e o Hezbollah libanês, planeja construir A Bomba, por isso devemos obliterá-lo.
Hoje, Teerã, Tel Aviv, Los Angeles, tudo está queimando (e também a Amazônia…). A Distopia-do-Real segue se aprofundando em Gaza de maneira que me evoca a lembrança dos dias de pandemônio neofascista no Brasil desgovernado pelo bolsonarismo, e em que nos dizíamos, a caminho de 700.000 pessoas mortas de covid: “nossas expectativas já eram baixas, mas puta merda.”
IsraHell já nos ensinou que devemos ter expectativas baixas diante da sua capacidade de respeitar o direito internacional… mas puta merda. A entidade imperial sionista, calcada na fé supremacista “Somos o Povo Eleito por Deus para usufruir de uma terra limpa de impurezas como árabes islâmicos”, vem a 22 meses se dedicando implacavelmente a construir o Inferno na Terra para 2 milhões e 300 mil pessoas presas no gueto de Gaza. Os gazanos, dia após dia, enquanto muitos fingem que não enxergam, estão sendo metralhados e bombardeados por estarem buscando comida. Hoje, a joint venture entre os EUA sob o domínio da extrema-direita cristã nacionalista e o sionismo da carnicifina representa um mundo mainstream endoidecido, correndo para o colapso, incapaz de lidar com a catástrofe climática, piorando a olhos vistos a capacidade da Humanidade e da Biosfera de terem um futuro vivível pois estamos de novo reféns dos Masters of War.
IsraHell e a AmériKKKa, reunidos em delírio supremacista, teocrático e plutocrático em sua forma mais brutal, hoje mostra sem máscaras, no Oeste da Ásia, a face da húbris: eles pensam poder construir a terra que lhes foi prometida em certos velhos livros por certos caducos profetas sobre um território etnicamente “limpo” da presença de raças inferiores e “animais humanos”. O sionismo segue hoje a cartilha do supremacismo nazifascista e promove em Gaza uma versão real de HUNGER GAMES – estamos diante de um Jogos Vorazes em que a realidade supera (e muito) a ficção distópica.
Na excelente revista 972, leia: The Hunger Games’: Inside Israel’s aid death traps for starving Gazans – Near-daily Israeli massacres at food distribution sites have killed over 400 Palestinians in the past month alone. Survivors describe stepping over corpses to get their hands on a bag of flour: ‘What choice do we have?’ – LEIA A TRADUÇÃO EM OUTRAS PALAVRAS: “Enquanto a atenção do mundo se volta para a guerra entre Israel e o Irã — e com Israel cortando simultaneamente serviços de internet e telecomunicações, impondo um apagão midiático e de informação a milhões de palestinos —, os ataques israelenses contra gazenses famintos que aguardam ajuda só se intensificaram…” ACESSE PRA SABER MAIS: https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/em-gaza-os-jogos-da-morte-do-sionismo/

Lembro de Roger Waters, do Pink Floyd, nos conclamando nos telões de seus shows: resist the unholy alliance between church and state. Parece que ainda não ouvimos a mensagem deste que é um dos mais importantes artistas do planeta dentre os que ergueu voz e atitude para denunciar o genocídio que Israel e os EUA cometem na Palestina. Parece que não entendemos ainda, que não caiu plenamente a ficha, que estamos diante de um monstrengo teocrático, de uma deplorável mistura de Estado e Religião, de um empreendimento de fanáticos pela dominação: a joint venture entre o nacionalismo cristão neofascista (Trumpismo, Bolsonarismo, Mileísmo…) com o judaísmo sionista supremacista (o Likud, encabeçado por Netanyahu e seus ministros extremistas). Resistir a esta nada-sagrada aliança é nossa tarefa histórica inadiável, e que não se fará em terra brasilis com eficácia, jamais, sem o enfrentamento contra o campo evangélico neopentecostal e o campo cristão conservador à la Opus Deis, que demonstram o fato para muitos intragável de que há muitos cristãos sionistas que estão fé-chados com o deu$ das carnificinas.
Diante de um tão tétrico cenário geopolítico, a lancinante questão “o que fazer?” se impõe. É diante dela, de sua excruciante urgência, que tento agir, nunca sem tormento. Às vezes bate um desânimo imenso diante do silêncio ensurdecedor e da apatia paralítica de tantos: ah, mas a Palestina é tão longe… ah, mas nada podemos fazer que obste o genocídio… ah, pensar nisto tudo é tão ansiogênico, gera tanta insônia, melhor os confortos da positividade tóxica e da cegueira voluntária… Mas sigo as pegadas de Alice Walker, que ensina, sábia, a doutrina à qual me apego: a maneira mais comum das pessoas abdicarem de seu poder é pensando que não possuem nenhum (“The most common way people give up their power is by thinking they don’t have any.”)
Trago aqui algumas reflexões sobre agir, fazendo o possível, ainda que na certeza de que é pouco. Um exemplo, que me trouxe algum alento em meio a tanto caos, foi esta fotografia que tirei da Andressa na Praça Universitária durante o ato do último Domingo. Um ato esvaziado, um ato fracassado do ponto de vista da mobilização de massas: Goiânia foi um fiasco e botou uns 30 gatos pingados na praça, no mesmo dia em que São Paulo realizava, com 30.000 pessoas nas ruas, o que é considerado o maior ato pró-Palestina da história brasileira, contando com presença de Ávila, retornando das masmorras israelenses após a aventura da Flotilha.
Exercer o documentarismo e o fotojornalismo pelo CMI d’A Casa de Vidro quase sempre é trampo inglório, que não repercute, não surte efeito, parece até que fazer ou não fazer dá na mesma, ressoa a questão melancólica de Eddie Vedder naquela bela canção do Pearl Jam, “how much difference does it make?” Mas, desta vez, me surpreendi. A foto da Andressa teve ampla ressonância, com 4.200 visualizações, 749 curtidas, 26 comentários e 94 encaminhamentos (dados em 23/06), um fenômeno que surpreende considerando a censura que a Meta vem exercendo sobre conteúdos assim. Presencialmente, estavam lá 30 pessoas, com seus olhos 👀 podendo ver aquele cartaz; através do fotojornalismo, pudemos através d’A Casa de Vidro expandir o impacto do manifesto de Andressa clamando para termos empatia pelas mães palestinas, cuja dor é tão atroz quanto a de qualquer outra mãe que perdeu rebentos para a guerra e o genocídio. Agradeço Andressa por ter confiado em mim: nem nos conhecíamos e eu a abordei querendo tirar esta foto.
Não sou nenhuma Lee Miller, mas me inspiro em seu exemplo (e acho que o “Civil War” de Alex Garland é um filme injustamente ignorado: vale nossa atenção por razões que expus aqui: https://acasadevidro.com/guerracivil/). Já considero esta uma das fotos mais importantes que já tirei, pela ressonância que está tendo, e pelo fato de destoar da Happycracia das redes sociais. Andressa não sorri; Andressa está em luto e em luta, em pesar e revolta, pelos horrores do mundo distópico em que estamos imersos. A imagem tem ressoado. Assim como nos Fritos da Terra, em que estamos colocando nosso artvismo a serviço de Palestina Livre Já, através de fotos e vídeos tentamos fazer o pouco que podemos para parar esta horribilidade desnorteante.

A surpreendente repercussão da fotografia de Andressa motivou que eu buscasse trocar uma idéia com ela sobre o eco que encontramos na web com esta peça de fotojornalismo urgente em que expressou sua empatia e indignação nas ruas de Goiânia, durante protesto que rolou na Praça Universitária em 15 de Junho, com a frase: “A dor de uma mãe palestina importa tanto quanto a de qualquer outra”. “Se todas as pessoas se doessem, levantassem sua voz, conseguiríamos mudar o mundo. Precisamos chorar alto pelo povo palestino”, afirmou nesta entrevista à Casa de Vidro.
Através da publicação, também veiculamos informações, potencialmente geradoras de revolta justa, propagadas pela ONU e pela Unicef, sobre as mais de 28.000 mulheres que Israel assassinou e as mais de 50.000 crianças que Israel matou ou feriu desde Outubro de 2023. Perguntei a ela: “como vc se relaciona com a noção ‘A MÃE DE TODAS AS CAUSAS’ afirmada neste cartaz em solidariedade aos tripulantes da Flotilha da Liberdade? Considera exagerada ou justa? Como mãe, manifestando-se pelo reconhecimento da dor das mães palestinas, você também se identifica e se sente comovida pela expressão “mãe de todas as causas”?
“Eu considero a causa palestina a mãe de todas as causas”, respondeu Andressa. “Porque é nítido o genocídio que estão fazendo com esse povo, e a luta contra o fascismo é uma luta que engloba todas as causas. No caso da Palestina, o fascismo vem como sionismo, então é justo considerá-la mãe, se aceitarmos o fascismo contra outros povos, além do fato de ser desumano, também é omisso, e essa negligência pode afetar todo o mundo, dando poder a um fascismo cruel, um imperialismo que irá nos diminuir como os palestinos. Como mãe, não vejo diferença da minha filha para um filho palestino, é claro que amo minha filha mais do que tudo, e por isso quero um futuro melhor, tenho medo de sofrer o que os palestinos estão sofrendo, o Brasil é um país cheio de diversidade, um alvo grande para o fascismo. E minha visão como humana é que os palestinos em geral merecem direitos humanos como qualquer pessoa, não há diferença, todos somos seres humanos, e o mínimo que merecemos é humanidade.
Sinto um ódio muito grande crescer no meu coração, contra esses governos, acho que a tolerância tem limites. Não podemos tolerar o que está acontecendo com o mundo. Não podemos tolerar quem defende Israel e apoiadores. Acho que as pessoas precisam acordar da alienação e buscar nossos direitos antes que seja muito tarde. Até para os mais egoístas, digo: o que acontece em Palestina é algo maior que se encaixa muitíssimo bem na extrema direita no Brasil. Nomes como Tarcísio e Ricardo Nunes que levantam a bandeira de Israel disfarçada de cristianismo também estão com as mãos sujas de sangue inocente. Almejam o mesmo poder para o Brasil. Um parlamento que ameaça muito uma democracia no Brasil. E não depende apenas da presidência, o Brasil está em uma situação complicada, e se engana quem pensa que pararam no golpe. A extrema direita é muito além do narcisismo do Bolsonaro. Eles se organizam e querem ver o povo desorganizado.”

👆 Muito tem me surpreendido a ressonância nas redes deste post (https://www.instagram.com/p/DLAFP8gg1Xg/) que já passou de 3000 curtidas e encaminha-se para 14.000 visualizações: tal repercussão extraordinária até trouxe um pouco de alento para todo o projeto do Centro de Mídia Independente d’A Casa de Vidro, que por vezes fica abandonado devido aos desânimos meus e dos potenciais colaboradores com a falta de tempo e de vontade, além do panorama midiático que mete a mordaça sobre quem cria conteúdos críticos, insurgentes, que denunciam as carnificinas que o imperialismo vai perpetrando enquanto rolamos nossos feeds; eu já havia calibrado minhas expectativas pra baixo em relação a qualquer post sobre a questão Palestina pois sabia das inúmeras evidências de censura que a Meta vem impondo via algoritmos viciados e shadowbanning. Não entendo o que ocorreu desta vez, mas esta peça de fotojornalismo com Andressa na PU está faz 20 dias proliferando, agindo como um meme, suscitando reações emocionais, e estranhamente toda vez q abro o app tem novas interações, o que também é bizarro considerado o instanteísmo dessas redes… Um post de 10 dias já é um “post velho”, mas este continua reverberando. A quem já cansou do tema, num aguenta mais post sobre desgraça, lamento mas vamos continuar – calar-se não é uma opção, ainda que o cansaço seja imenso para nós que estamos reclamando desde que o genocídio começou em Outubro de 2023. Peter Pál Pelbart disse: “cabe insistir em que a inação, a neutralidade e o silêncio se tornam cumplicidade. É intolerável o que acontece, e ainda mais intolerável testemunhar em silêncio”. Recusaremos o silêncio cúmplice e a apatia conformada, e estaremos tentando construir coro com ativistas como Andressa, com bandas artvistas como os Fritos da Terra, fazendo parte da frente anti-silenciamento. Assim como Audre Lorde ensinou que não podemos esperar, antes de nos expressarmos, pelo luxo do destemor – devemos falar, ainda que com voz trêmula; devemos cantar, ainda que desafinados; devemos gritar, ainda que suspeitemos que nossa voz não será escutada; devemos noticiar, ainda que tantos não se importem; – também não podemos esperar na inação, sentados num vil conformismo, enquanto Israel e os EUA assassinam pessoas famintas no gueto de Gaza enquanto estas buscam desesperadamente por sacos de farinha dopada com oxicodona. 😱 #palestinalivre #dorioaomar #stopgenocideofpalestinians
SAIBA MAIS NO SITE D’A CASA DE VIDRO: URL PARA O POST >>> https://acasadevidro.com/jogos-vorazes-na-distopia-do-real/
Por Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, 23/06/2025
NOTAS
– A foto na abertura desta publicação, republicada do portal Common Dreams, retrata palestinos que estão sendo esfomeados por Israel em Gaza: A crowd of starving Palestinians, including children, waits to receive food distributed by charity organizations amid Israel’s blockade at the Jabalia refugee camp in Gaza on March 27, 2024. (Photo by Mahmoud Issa/Anadolu via Getty Images). Fonte: https://www.commondreams.org/news/israel-starving-gaza-children
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Al JAZEERA – Belén Fernandez: By bombing Iran, the US continues to make the world safe for war: Netanyahu is thrilled by Trump’s attacks on Iran, as will be the arms manufacturers who used to love the shah of Iran. URL: https://www.aljazeera.com/opinions/2025/6/22/by-bombing-iran-the-us-continues-to-make-the-world-safe-for-war
REVISTA OPERA – Vijay Prashad: os ataques ilegais de Israel contra o Irã – Israel é o único país do Oriente Médio com uma arma nuclear; acusado de avançar seu programa nuclear, o Irã chegou a propor uma Zona Livre de Armas Nucleares na região. URL: https://revistaopera.operamundi.uol.com.br/2025/06/13/vijay-prashad-os-ataques-ilegais-de-israel-contra-o-ira/
Publicado em: 22/06/25
De autoria:
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia